Ex-CEO questiona estratégia da Petrobras na energia solar e alerta para riscos de alocação de capital na transição energética
Entrada da Petrobras na energia solar por meio de joint venture com a Lightsource é criticada por ex-CEO, que aponta riscos estratégicos, financeiros e de governança.
A decisão da Petrobras de ingressar no segmento de energia solar em larga escala voltou a provocar debates sobre estratégia e alocação de capital na estatal. A movimentação, anunciada recentemente, envolve a aquisição de uma participação minoritária em ativos solares no Brasil e foi alvo de críticas públicas do ex-presidente da companhia, Jean Paul Prates.
Para ele, a operação pode representar um equívoco ao confundir transição energética com decisões financeiras de retorno limitado.
O posicionamento chama atenção porque parte de um executivo que, durante sua gestão, defendeu de forma consistente a diversificação do portfólio da empresa em negócios ligados à transição energética.
Detalhes da operação colocam energia solar no centro da estratégia
Na terça-feira (17/12), a Petrobras informou a compra de 49,9% da Lightsource no Brasil, subsidiária de renováveis da britânica BP. O valor da transação não foi divulgado. Com o acordo, a estatal passa a dividir a gestão de uma carteira de ativos voltados à energia solar.
Entre os empreendimentos envolvidos está a usina fotovoltaica de Milagres, localizada em Albaiara, no Ceará, que possui capacidade instalada de 212 megawatts. Além disso, o portfólio inclui projetos em estágio mais avançado de desenvolvimento, que somam entre 1 gigawatt e 1,5 gigawatt, assim como outros ativos ainda em fase inicial.
A entrada nesse mercado ocorre em um contexto de forte expansão da energia solar no Brasil, mas também de maior competição e compressão de margens no segmento.
Críticas apontam risco financeiro e perda de controle estratégico
Ao comentar a operação, Jean Paul Prates questionou a escolha da Petrobras por geração solar em grande escala. Segundo ele, trata-se do “segmento mais saturado das renováveis”, o que reduziria o potencial estratégico do investimento. Além disso, o ex-CEO destacou preocupações com o modelo de governança adotado.
“É o pior dos mundos. A Petrobras assumiria risco financeiro relevante sem comandar a estratégia, sem definir prioridades geográficas, sem ditar o ritmo de investimentos e sem garantir captura de sinergias. Na prática, entraria com capital enquanto o parceiro monetiza ativos maduros. Isso não é parceria estratégica. É transferência de risco com retorno limitado”, escreveu Prates em publicação na plataforma Medium.
Na avaliação dele, a estrutura de controle compartilhado amplia as incertezas e limita a capacidade da companhia de direcionar o negócio conforme seus interesses de longo prazo.
Questionamentos sobre coerência e visão de longo prazo
Além das críticas operacionais, Prates afirmou que a transação levanta dúvidas mais amplas sobre a coerência estratégica da Petrobras. Para o ex-presidente, o investimento em energia solar, da forma como foi estruturado, não se alinha ao perfil histórico da empresa.
A operação, segundo ele, possui características de um negócio voltado à gestão de portfólio financeiro. “Trata-se de um negócio financeirizado, de margens comprimidas, baixo risco e retorno previsível. Um bom ativo para fundos de infraestrutura. Um negócio legítimo para empresas privadas focadas em gestão de portfólio e PPAs (contratos de fornecimento de energia) corporativos. Mas não um passo óbvio, nem inteligente, para uma companhia com o perfil, a história e as responsabilidades da Petrobras”.
Esse diagnóstico reforça a percepção de que a entrada no setor de energia solar exige critérios claros sobre sinergia industrial e retorno estratégico.
Alternativas defendidas para a transição energética da estatal
Durante sua passagem pela presidência da Petrobras, entre 2023 e 2024, Prates se destacou como defensor de investimentos em fontes renováveis com maior aderência às competências da companhia. Um dos exemplos citados por ele é o desenvolvimento de projetos de energia eólica offshore.
O ex-CEO relembrou que via as eólicas em alto-mar como um dos “caminhos naturais” para a empresa, especialmente pela experiência acumulada em engenharia marítima. Além disso, mencionou oportunidades em biocombustíveis avançados integrados ao refino e à indústria química.
Outro vetor apontado foi o hidrogênio de baixo carbono, que poderia ser “articulado com gás, captura de carbono e indústria pesada”. Na avaliação de Prates, essas frentes estariam mais alinhadas à estrutura operacional e tecnológica da Petrobras do que a geração solar em escala industrial.



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